De assessor do Governo a cozinheiro, com todo o gosto

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Ironias do destino. Assessor do Governo PS, no Ministério do Trabalho, ficou desempregado quando o Governo caiu. Mas não baixou os braços

Foi assessor de imprensa quando José Sócrates ainda era só ministro, e não primeiro. Também foi assessor do ministro da Agricultura Jaime Silva e, depois, de Helena André, que tinha a pasta do Trabalho. Ironia do destino, depois disso ficou desempregado. Mas Mário Ribeiro, 45 anos, não cruzou os braços.

«Oh Maria, Comida Pronta» surgiu há poucos meses, por incentivo dos amigos. Cozinha em casa, para fora, embala e faz entregas. Tudo.

«Candidatei-me a seis cursos do IEFP, que não começaram. Chegaram a avisar só 24 horas antes. É tudo uma grande mentira. Como estive no Ministério do Trabalho sei porque é que isto é feito. No momento em que me inscrevo, saio das estatísticas do desemprego, que é muito maior do que se pensa».

Chegou aos últimos seis meses do subsídio e tinha de fazer alguma coisa. Do Estado, os apoios definitivamente não surgiam. Ainda tentou o micro crédito, para comprar um carro pequeno, em segunda mão, para transportar as refeições. Sem sucesso. «É surreal. O meu negócio começou com 200 euros para as embalagens e para os ingredientes da primeira semana. Se tivesse de pedi-los ao IEFP ainda estava à espera».

Depois, o drama da idade. «Se tivesse 30 anos… Com 45 ninguém me vai querer dar trabalho. O que me aconselham é que me vá inscrever para receber refeições grátis».

Mário não deixa que o empurrem para esse destino. Solução: «Desenvencilhar-me sozinho». Ele que «supostamente» conhecia muita gente. Mas as pessoas esquecem rápido.

Oh Maria, oh Mário

Alguns dos seus clientes estão na Assembleia da República, corredores que conhece bem. «Eu entro com a marmita e há quem olhe para mim e pergunte: Então estás assim vestido? Parece uma coisa quase condenável».

Mas não é e Mário sente-se cada vez mais realizado: «Cada vez acredito mais». Já teve até quem lhe aconselhasse os serviços da Oh Maria. Ter criado essa personagem, no feminino, dá-lhe gozo. «Na entrega, as pessoas ficam espantadas. Perguntam-me: Você? Um homem a cozinhar?».

Primeiro, começou a vender refeições aos amigos. Depois, a empresas. O prato normal custa 3,99 euros, o vegetariano 3,5 e a sopa, 1 euro.

Tem de fazer uma ginástica diária nas compras porque lida com produtos perecíveis. E não quer gastar muito, mas privilegia a qualidade. «Prefiro o sacrifício de vir às compras todos os dias, para não ter sobras em stock». «Aproveito as promoções dos supermercados todos». Passou também a comprar as embalagens diretamente no fornecedor, para lhe sair mais barato.

A namorada, designer gráfica, ajudou-o a criar a imagem da marca e o Facebook é a sua grande arma. «As redes sociais são fundamentais. Coloco lá as fotografias das comidas que faço e ganhei clientes graças à imagem e forma como são apresentadas», com nomes originais.

Elabora a ementa na semana anterior. Tem cinco mil e tal receitas que foi acumulando ao longos dos anos. Quase não repetiu pratos até agora.

Com as receitas que a Oh Maria gera, já consegue pagar a prestação do carro. Para ele, tira ainda muito pouco. Mas está confiante que o próximo passo é contratar outra pessoa.

«Como faço tudo, desde as compras de ingredientes, embalagens, passando pela cozinha, por embalar e por transportar, vai chegar a determinada altura, quando tiver uma rotina de clientes, que será necessário. Mais tarde, este ano vai ser muito complicado».

No futuro, espera abrir mesmo uma cozinha. Um modelo de negócio «que nem sequer está testado em Portugal».

Ele, por força do desemprego e de amigos com olho para o negócio, foi «quase atirado para o mercado. Nunca me passou pela cabeça, cozinhava por gosto, mas nunca pensei que fosse um modo de vida. Mas faço aquilo que gosto, com enorme liberdade. Faço exactamente o que quero, do modo que quero. Se de repente se tornar maior do que eu posso parar a qualquer instante. Nada depende dos outros. Depende só de mim».

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