Trabalhar das 9 às 5 ou ser feliz?

550 (1)

Trocaram empregos estáveis pela Sweet Lisbon River, uma guesthouse com o «cheirinho» dos doces conventuais portugueses em cada pormenor da decoração

Primeiro, Ana Rita Fernandes deixou a empresa de transitários onde trabalhava para se atirar de cabeça num consultório de psicologia com mais duas amigas. «Foi um desastre total». Até que, no ano passado, com Helena Gonçalves, e outra sócia que vive em Angola, voltou a atirar-se de cabeça noutro projeto. E desta vez resultou.

Têm 40 anos e o alojamento local não lhes era desconhecido. Helena também já estava saturada do seu trabalho como diretora financeira numa multinacional (embora ganhasse bem) e começaram há alguns anos a angariar turistas para apartamentos no centro histórico de Lisboa – um é mesmo delas, os outros 38 que exploram têm dono. Assim, pelo menos, não têm despesas com rendas fixas e ganham à medida que conseguem clientes.

E eis que surge a Sweet Lisbon River, uma guesthouse ali pertinho de Alfama, com vista para o rio Tejo. A partir daí, passaram a dedicar-se ao turismo a tempo inteiro. Tentaram financiamento estatal. Não conseguiram. A amiga angolana deu o dinheiro, elas dão o trabalho.

«Visitámos este espaço e apaixonámo-nos», disseram ao tvi24.pt. Arrendaram-no logo.

Depois de «quatro longos meses de obras», a Sweet Lisbon River abriu portas em abril de 2012. O investimento, no total, poderá chegar aos 150 mil euros, e só não será maior porque estas três amigas fazem jogo de cintura e têm olho para o negócio.

Todos os móveis são em segunda mão e a maior parte foi comprada em associações, como a Reto à Esperança, que acolhe toxicodependentes em Lisboa. É precisamente isso que dá à Guesthouse um «toque especial», misturando um estilo antigo com cores e uma frescura moderna, explicou Helena.

Os oito quartos têm capacidade para 32 pessoas e a decoração «cheira» a doces conventuais portugueses. Os quartos não têm números. Antes, cada um tem uma cor associada a um doce: desde o pastel de natal e pudim de laranja, passando pelo bolo de chocolate e morangos, arroz doce e licor de amoras silvestres. Outros dão a cara pelos ingredientes base: o açúcar, os ovos e a canela.

Já passaram por aqui mais de mil pessoas, desde europeus, a japoneses e coreanos, por exemplo. Com mais de 800 gostos no Facebook e presente em portais como o booking.com, a taxa de ocupação rondou os 90% nos meses de verão, outubro incluído. Esperam ter o retorno do investimento entre três a cinco anos e a ambição é tornar a Sweet Lisbon River num franchising.

Trabalham no duro: a principal despesa é com pessoal, que está reduzido ao mínimo. São quatro pessoas, parentes: «Fazemos tudo, desde receber hóspedes, fazer marcações, limpezas, pequenos-almoços, responder a e-mails, noites, ir aos apartamentos (o outro negócio)».

Se tivessem que voltar atrás, faziam tudo outra vez. «Na empresa em que trabalhei antes do consultório de psicologia tinha no desktop uma imagem do Garfield em que ele chegava ao escritório e tinha duas prateleiras: numa, estava o cérebro; na outra, os papéis. Tinha de escolher a dos papéis para trabalhar. Eu também não usava o cérebro para nada. Era paga para executar, não para pensar», ilustrou Ana Rita. Fartou-se disso. Literalmente.

Agora, a azáfama é constante. A incerteza também. Mas é uma escolha, é a busca da felicidade. «A preocupação é constante, mas posso garantir-lhe que não trocamos isto por nada deste mundo. Não há emprego nenhum estável que nos dê este prazer. Fazemos os nossos próprios horários, trabalhamos 18 horas por dia, é um facto, temos dois dias de descanso por semana, à quarta e à quinta (fins-de-semana com a família não existem), as férias de verão acabaram, mas preferimos a realização pessoal, a independência, o alívio de, bem ou mal, a responsabilidade é nossa. Assumimo-la, não temos problema nenhum. Gostamos muito dela e queremos continuar assim. Atirámo-nos de cabeça, mas valeu a pena».

Anúncios