Crise e poupança: é de pequenino que se torce o pepino

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Semana dedicada à educação financeira ensinou 450 crianças a poupar, a não desperdiçar e a saber que o dinheiro não cai do céu

«Atenção, atenção! Poupas em ação!». Cerca de 450 crianças do Agrupamento de Escolas da Moita entoaram em uníssono este slogan, durante uma semana dedicada à Educação Financeira. O Poupas é o novo colega de turma. «A mascote, o símbolo da poupança», resume Ricardo Ferreira, da Escola Financeira, que organizou esta iniciativa.

Poupança, dinheiro, desperdício, banco, cartão de crédito, juro, empréstimos são palavras-chave. Estas crianças vão ajudar o Poupas a poupar em casa, no supermercado e no banco.

«Em todos os jogos recebem dinheiro e em função do desempenho são premiados. No final, há uma pontuação para ver quanto conseguiram poupar e colocar o dinheiro no cofre do banco».

Na casa do Poupas, estas crianças do primeiro ciclo identificaram comportamentos de desperdício, como deixar a torneira aberta enquanto lava os dentes, tomar banhos de imersão em vez de chuveiro e deixar os aparelhos eletrónicos ligados mesmo quando não são precisos.

Depois, o Poupas quis fazer um piquenique com os amigos e, para isso, precisou de ir ao supermercado. Teve de selecionar lista de compras correta, sem desperdícios, simulando preços. Os alunos somaram os gastos. Corrigiram-se uns aos outros quando alguém fez mal as contas. Carolina já sabe qual é o melhor comportamento: primeiro, elaborar uma única lista de compras, depois escolher os produtos mais baratos e comprar marcas brancas. No final, direito à fatura!

Quando chegamos ao banco, mais um slogan dito a alto e bom som:«Grão a grão, junta a formiga um milhão!». «O senhor do banco sou eu. Aqui não me chamo Ricardo. Falamos de conceitos como o multibanco, se tem ou não limite; de onde vem o dinheiro que os papás têm para gastar; desmistificamos a ideia que o dinheiro «aparece» na carteira; e a importância de colocá-lo no banco, abrir uma conta poupança, tudo isso», explica à TVI24.pt Ricardo Ferreira.

Quase todas as crianças dizem que têm um mealheiro em casa, sabem que o dinheiro fica mais seguro no banco e que podem ganhar um prémio com isso (o juro). Têm a consciência de que existe outro juro, o mau, quando se pede dinheiro emprestado. «Chega a ser o dobro», diz uma menina.

Sabem, também, que o dinheiro «vem do trabalho dos pais» e que poupar é importante, porque caso contrário não haverá dinheiro para comprar comida, pagar a casa e pagar as dívidas ao banco – as três prioridades expressas por alguns.

E a crise? Associam-na precisamente a dívidas e colocam as culpas em Sócrates e Passos Coelho. Se pudessem dar conselhos ao Governo, dizem que se devia preocupar mais com os outros, gerir melhor o dinheiro e investir na agricultura.

Também têm lições a dar aos pais: devem lavar a roupa e a louça na máquina à noite, comprar só o que é necessário e não deixar as luzes acesas, por exemplo. A mensagem passa, de facto, para casa. «Estas iniciativas cada vez mais se justificam», admite Marília Gonçalves, representante Associação de Pais.

«Muitas vezes o que acontece é que as crianças repetem muito o que ouvem em casa, mas não entendem o que se está a dizer; justificam a crise por aquilo que ouvem, mas não percebem porque é que acontece. Temos de ajudá-las a pensar, a chegar à solução», afirma Sílvia Paixão, psicóloga infantil da «Dos 0 aos 100», também envolvida neste projeto.

E «o Poupas é um menino igual a eles, com que eles se identificam». Querem logo ajudá-lo a poupar «para não gastar sem pensar», segundo Maria, uma menina do 3º ano. ««Não se sabe se um dia podemos precisar do dinheiro, para alguma emergência», reforça outra menina.

A formação termina com uma sessão dedicada aos pais e pretende sensibilizar o Governo para a pertinência da educação financeira nas escolas. Logo no início de março será lançado o «Manual Educação Financeira – Crianças e Adolescentes», para educadores e crianças. Afinal, lá diz o ditado, é de pequenino que se torce o pepino.

Artigo publicado aqui

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