Dívida a 10 anos: Irlanda é farol, oportunidade de Portugal é agora

Já na primeira emissão a cinco anos na era troika, Lisboa recebeu o empurrão de Dublin. Mais vale aproveitar, porque depois pode ser tarde demais

Chegou o dia de, depois de ter pedido o resgate internacional, a Irlanda avançar com uma emissão de dívida a 10 anos, a maturidade de referência, a mais importante. Prova mais do que superada, forte procura e juro de 4,15%. Foi precisamente a Irlanda que empurrou Portugal para a primeira emissão a cinco anos na era troika. E agora, virá aí o teste decisivo?

«De facto, a Irlanda tem sido o nosso farol. Foram os primeiros a trocar dívida, que nós também fizemos, depois avançaram com a emissão a cinco anos e nós também», lembra ao tvi24.pt o economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros, Filipe Garcia. Agora a operação mais esperada, a 10 nos. «É um bom indicador que Portugal possa seguir uma situação parecida no curto prazo».

Da última vez, na emissão de dívida a cinco anos, demorou duas semanas até o Tesouro nacional decidir fazer o mesmo. Filipe Garcia não antecipa calendários, mas entende que esta é «uma janela de oportunidade que convém não desperdiçar. Daqui a um mês não se sabe» como estarão as coisas.

Cortes de 4 mil milhões têm de ser esclarecidos antes

Portugal poderá avançar, mas não sem haver antes um «esclarecimento adicional sobre quais asmetas orçamentais, para quando e que capacidade para serem cumpridas ou não». Filipe Garcia refere-se aos cortes de 4 mil milhões e não só: «O que nos apercebemos é que se fala na extensão do défice para 2015, mas várias pessoas dizem que não será suficiente. Há também questão política, algumas interrogações. É preciso que se perceba o caminho a dois ou três anos para se fazer emissão mais longa».

Portugal/Irlanda: mais tarde ou mais cedo, diferenças serão percebidas

A Irlanda funciona como farol, mas as situações dos dois países são distintas, salienta o mesmo especialista. É que se o problema de Dublin está sobretudo relacionado com o setor bancário e com o endividamento do Estado, Portugal lida com questões orçamentais e problemas estruturais de fundo.

Basta olhar para os números para perceber que «a diferença entre as duas economias que se vai acentuar ainda mais»: por lá registou-se um crescimento de 0,4% em 2012 (Portugal enfrentou uma recessão de 3,2%) e este ano o PIB vai expandir-se mais 1,4%, ao passo que aqui «a recessão rondará os 2%, 2,5%», antecipa Filipe Garcia.

Assim, «a janela de oportunidade para Portugal emitir é mais estreita». Mas existe um bom momento de mercado agora, que «só não é melhor nesta altura, porque temos a situação de Itália».

De qualquer modo, há uma «boa situação de mercado, primeiro porque Irlanda também conseguiu; em segundo lugar, permanece o otimismo em relação à resolução da crise na Zona Euro; e arriscaria a dizer que preocupações em relação à economia e ao crescimento ainda não estão a aparecer nas preocupações dos agentes de mercado, o que mais tarde ou mais cedo vai acontecer».

Na conferência em que apresentou os resultados da tão aguardada emissão de dívida a cinco anos, a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, disse que se pretende «reconstruir toda a curva de rendimentos da dívida portuguesa e, na altura adequada, realizar também emissões a 10 anos».

Se for como da última vez, à boleia da Irlanda, Portugal poderá não demorar muito a fazer o teste decisivo.

 

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