O que o PIB e a felicidade têm em comum

INE está a elaborar um índice sobre o bem-estar dos portugueses. Ideia é que políticos tomem melhores decisões e que cidadãos se conheçam enquanto povo

happiness

«Se antes as pessoas se riam, hoje já ninguém se ri». Medir o bem-estar e, por essa, via, a felicidade é algo que está a ser levado muito a sério e o investigador Gabriel Mota, que se dedicou à Economia da Felicidade na sua tese de doutoramento, aplaude. E está a ser tão levada a sério lá fora, mas também por cá. Tanto que o Instituto Nacional de Estatística está a desenvolver um índice para medir estatisticamente o bem-estar dos portugueses.

«A evolução estatística do PIB assentava na assunção precipitada que uma maior prosperidade económica significava maior bem-estar e, de forma abusiva, felicidade. Sabemos hoje que não é assim», disse esta quarta-feira Paulo Gomes, responsável por este índice que o INE está a elaborar, no iFórum da Felicidade, que teve lugar no ISEG, em Lisboa.

Podíamos ser mais felizes com outro tipo de Democracia

A caracterização do bem-estar em Portugal, que abrangerá o período entre 2004 e 2011, estará centrada em dois pilares: as condições materiais de vida e a qualidade de vida. O primeiro tem três domínios de análise – bem-estar económico, vulnerabilidade das famílias e condições de habitação, trabalho e remunerações. O segundo tem sete domínios, que vão desde a saúde, balanço vida-trabalho, educação, conhecimento e competências às relações sociais e bem-estar subjetivo, participação cívica e governação, segurança e ambiente.

Os primeiros resultados serão conhecidos em 2014. A ideia não é que substituam outros indicadores macroeconómicos como o PIB, mas que sirvam de complemento «para construir manancial de informação de apoio à classe política» e de «proximidade» aos cidadãos.

E servirá para «deixarmos de embarcar entre o extremo do otimismo irresponsável e o pessimismo doentio.Precisamos de auto-estima enquanto povo». Paulo Gomes levanta o véu: haverá indicadores «que mostram que há muita coisa para melhorar, mas nem tudo vai mal».

Poderá este indicador de bem-estar transformar-se num indicador de mal-estar dado o momento depressivo que vive o país? «Esse medo penso que não vai existir por parte dos decisores [políticos], quaisquer que sejam os resultados que este filme possa trazer», mesmo que se trate de «informação que seja mais deprimente do que aquela que fornece o próprio PIB ou a taxa de desemprego». O importante é que «temos indicadores que mostram que há mais vida para além daquela que decorre da avaliação do produto».

A felicidade não é vista como «um fim em si, nem [como] um indicador que resolve problemas, mas ajuda a pensar no problema do desenvolvimento e no efetivo progresso humano», notou também Gabriel Leite Mota.

«Pode e deve ser pensada como viver uma vida boa e com valor», pelo que se deve «pensar a Economia como tendo o desenvolvimento das pessoas», reforçou Vítor Neves, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que corrobora da ideia de que os economistas têm confundido o crescimento do PIB com o crescimento do bem-estar: «Quando PIB é colocado como objetivo último há inversão de prioridades. O crescimento económico é um instrumento, não pode ser o fim».

Também Rui Brites, sociólogo do ISEG, assinalou que «não é termos mais dinheiro que nos faz felizes. Quando temos o dinheiro que precisamos, segundo os nossos padrões de vida, mais dinheiro não traz mais felicidade. Agora com o caso do Chipre, traz é preocupação» até, exemplificou.

O sociólogo considera que seria «ótimo» que, no futuro, para além do Produto Interno Bruto, o Ministério das Finanças ou entidades como o Banco de Portugal apresentassem também a Felicidade Interna Bruta. Até porque, reclamou, «a felicidade é o único tema da Economia».

Artigo publicado aqui

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