Grécia há 3 anos ao colo da troika: «Estamos esgotados»

Fantasma da saída do euro já não paira tanto sobre o país, mas há outras preocupações. Como o desemprego, que disparou «de forma lastimável» desde 2010

Foi há precisamente três anos, a 23 de abril de 2010, que a Grécia aceitou que não conseguia resolver os seus problemas sozinha. Pediu ajuda ao FMI. Caiu, como Portugal um ano mais tarde, nos braços da troika. E está «esgotada». E está «sem perspetivas».

A saga continua: Grécia vai para o sexto ano de recessão

Antes da reviravolta, em 2009, o país enfrentava já uma recessão, à volta de 2%, mas nessa altura a taxa de desemprego ainda ia  nos 9,4%. Três anos depois, a economia já afundou uns expressivos 18% (4,5% em 2010, 7,1% em 2011 e 6,4% em 2012). A saga vai continuar este ano, o sexto de recessão, com um queda de -4,5%. Se tudo correr bem, a segunda metade do ano trará alguma lufada de ar fresco, permitindo que o país cresça em 2014 (0,6%).

Mas mesmo que isso aconteça, o valor da dívida pública continua a ser brutal: atingiu os 144,9% no final de 2010 (já com a troika em ação), disparou para os 170,6% em 2011 e vai voltar a escalar este ano para os 175,5%, segundo as previsões.

Desemprego quase nos 30%

Depois, claro, o flagelo do desemprego, um dos problemas mais difíceis e mais visíveis, que poderá tardar a resolver. Em janeiro deste ano, a taxa disparou para os 27,2%. Os economistas acreditam que chegue aos 30%.

Os mais afetados são os jovens com menos de 24 anos, sendo que perto de seis em cada 10 (59,3%) estão desempregados, e os que estão entre os 25 e os 34 anos, em que mais de um terço (34,2%) também não tem trabalho.

Para se ter uma ideia, desde que a troika chegou a Atenas, em 2010, a taxa de desemprego já trepou 14,7 pontos percentuais.

Não há Grexit, mas e a luz ao fundo do túnel?

Foram – estão ainda a ser – três anos de esforço, de sacríficio, da penosa austeridade que os portugueses vieram depois a sentir na pele e sentem também agora. Maria Piedade Maniatoglou, da Associação Cultural para a Comunidade Portuguesa na Grécia, já vive no país há mais de 30 anos.

Claro que o desemprego é dos primeiros problemas a apontar, nesta altura de balanço: «Aumentou de uma forma lastimável desde então. É um dos fatores mais negativos e o facto de que as perspetivas, neste momento, não serem muito prometedoras».

Diz que os portugueses, lá, «sofrem a crise como qualquer outro cidadão grego». «Ao fim de três ou quatro anos de crise – ou até mais, porque os problemas vinham de antes – o grande impacto começou a sentir-se em finais de 2009». Um balanço? «As pessoas estão esgotadas. Mesmo quem tivesse algum dinheiro de parte, com certeza já teve de o gastar».

O fantasma da saída do euro – Grexit – «está um pouco afastado». Atualmente, «não é um problema que se ponha fortemente». Segundo a última sondagem, a maioria dos gregos é a favor do euro, apesar da austeridade. Seis em cada dez preferem estar na moeda única do que voltar ao dracma.

Pela positiva, Maria Piedade Maniatoglou nota que já se começa a ver um «certo interesse de capital estrangeiro para começar a investir aqui. Fala-se que há obras públicas que vão ser retomadas. E em relação a parte do dinheiro que foi emprestado, o Estado até ao momento tem conseguido fazer face às suas obrigações». Está a conseguir pagar salários e pensões. Na altura do pedido de ajuda, o cenário era bem diferente, de colapso do sistema.

Trinta anos num país é muito tempo e Maria Piedade nunca pensou regressar a Portugal. A sua família tem trabalho, apesar de tudo. E estar «a sair de um sítio com graves problemas para nos metermos noutro também com graves problemas não é o mais acertado». Claro que há pessoas a emigrar – isso também se está, de resto, a sentir em Portugal -, mas destinos como a Austrália ou até a rival Alemanha são mais promissores.

No meio disto tudo, já se perde a conta aos milhões e milhões de euros que estão a socorrer os gregos. Uma fatura que terão de pagar: 110 mil milhões de euros do primeiro resgate; 148 mil milhões do segundo, que vai até 2015. Mais juros, claro.

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