Bahamas: o destino pouco óbvio (mas quase perfeito) para emigrar

João Fialho é professor universitário, levou mulher e dois filhos com ele para esta aventura. Vive a 500 metros da praia e trabalha 12 horas por semana

Bahamas

Não foi com a corrente para Angola ou para Moçambique. Escolheu as Bahamas para viver, depois de ter concorrido para professor universitário de matemática. Quase um ano depois de ter chegado, João Fialho, 33 anos, de Évora, não tem dúvidas em responder que fez a escolha certa.

Quando acabou o doutoramento, nem chegou a tentar ser professor universitário em Portugal. Entre a Arábia Saudita, Koweit e Bahamas, a terceira opção. Despediu-se e levou a mulher, professora primária (que pediu uma licença sem vencimento) e os seus gémeos de cinco anos.

«Para os miúdos foi claramente a escolha certa: está a ser excelente, desenvolvem o inglês na escola, lidam com a multiculturalidade», contou ao TVI24.pt numa conversa por Skype.

Meia dúzia de portugueses

Há muita gente de fora – EUA, Suíça, Brasil, Canadá, Itália, Grécia -, mas não há portugueses por ali. Que ele saiba, são seis, já com eles os quatro. E eles foram os primeiros a vir diretamente de Portugal. Os outros já tinha vivido noutros países.

«Viemos um bocado à aventura. Não era a melhor proposta em termos monetários, mas era a que reunia melhores condições». Toda a gente que conhece «veio na tentativa de experimentar algo novo. Não fugimos do desemprego. Por um lado, foi um salto no escuro, porque voltar, como as coisas estão agora em Portugal, pode ser mais difícil».

Mas o plano também não é esse. O contrato de João é de dois anos, renovável, e sabe que fazer investigação em Portugal, que é o que gosta, não é fácil.« A maior probabilidade é outro destino. Depende como as coisas se proporcionarem. Os miúdos gostam muito da escola aqui. Só se a proposta for boa é que saímos».

Vida boa, mas cara

As Bahamas são conhecidas como um paraíso fiscal, e de facto o salário de João não é sujeito a impostos, paga só 2% ou 3% de Segurança Social, mas há um senão: a vida nas Bahamas é muito cara, mas a família Fialho tem uma situação confortável. Um professor doutorado ganha, no escalão mais baixo, 48.000 dólares por ano (quase 37.000 euros), mas João aufere mais. Trabalha 12 horas por semana – «aí trabalhava 12 por dia» – e as horas extra são pagas à parte, «coisa que não acontece aí». «Temos muito mais tempo para estar os quatro. Dá para ir à praia ou à piscina todos os dias». Estão ali mesmo, a 500 metros.

A maior dificuldade na adaptação foi mesmo «a ordem de grandeza». «Tudo aqui tem mais um zero. João assustou-se logo com a primeira conta de supermercado para um mês: 1.500 dólares.

As consultas nos hospitais públicos ficam em 100 dólares, sem seguro de saúde. E, para quem tem, a fatura é pesada. No caso desta família, a universidade ajuda, mas mesmo assim fica-lhe em 1000 dólares/mês pelos quatro. A burocracia também chega a ser desesperante.

Depois, «pela escola dos miúdos pago mais por três meses (6.000 dólares) mais do que paguei pelo meu doutoramento todo e é a escola privada mais acessível. Nalgumas chega a 54.000 dólares/ano».

A casa fica-lhes em 2.200 dólares mensais, num condomínio com piscina. E, só em eletricidade, gasta 300/mês. A mulher faz voluntariado numa escola. «Tem sido uma boa experiência, porque aprende métodos de ensino novos. Aqui o ensino é muito intensivo. Aos 5 anos, as crianças já sabem ler».

Em termos profissionais, a vida de João tem sido «desafiante». «O ensino é muito desigual» e o nível de exigência «muito mais relaxado». A maior parte dos seus alunos têm uma bíblia pequena no tampo da mesa. «Para um exame, um deles esqueceu-se de calculadora, mas disse que Deus iria ajudar».

Esta é uma das características dos locais: «São muito simpáticos, mas pouco prestáveis». Quando há um problema dizem: «Reza, isso resolve-se». Em coisas tão simples como ir às compras, para quatro pessoas, nas duas primeiras semanas em que não tinha carro, João sentiu essa falta de entreajuda. Se houvesse um português, dava uma mãozinha.

Nas Bahamas, ninguém sabe o que é e onde fica Portugal. Às vezes, há quem associe à capital do Haiti, Port-au-Prince, pelo facto de o nome ser parecido.«Também não conhecem o Cristiano Ronaldo. Não se interessam por futebol, mas sabem quem é o Messi», conta João.

Os portugueses, os portugueses. Povo que desde cedo mostrou ter espírito aventureiro e de descoberta, que sempre teve uma tradição de emigração. João Fialho elogia «a nossa capacidade de adaptação às línguas e a nossa formação científica, que não tem comparação com a americana, por exemplo. Estamos muito bem preparados. Não temos a noção do quão bem preparados estamos. Se baixarmos o nível de ensino em Portugal, perdemos uma forte vantagem competitiva».

Quando esteve cá, em dezembro, ficou «apreensivo» com o país que encontrou. Tem saudades de ir à bola («mas sei que o meu Benfica está bem»). Tem saudades dos amigos. «O facto de aqui não termos uma comunidade portuguesa torna a adaptação mais difícil. Isso desencoraja muita gente, para para nós tornou as coisas mais desafiantes».

«Os primeiros quatro meses foram difíceis, não nego. Mas o balanço da experiência é positivo». A maior parte dos seus atuais amigos são americanos, canadianos e gregos, e alguns locais. «Volta e meia fazemos jantares em casa uns dos outros, mas não com tanta regularidade como em Portugal», onde uma mesa cheia e bem regada faz muitas noitadas.

Por falar nisso, vinhos portugueses nas Bahamas, país de milionários, nem vê-los. Só encontrou Gazela, «mas engarrafado com rosca e não com rolha. Não tinha gás nenhum. Mas foi a única coisa portuguesa que encontrei aqui, até agora». Tem incentivado amigos produtores, de Portugal, a exportarem, mas está difícil. Os produtos importados são taxados em 35%, o que complica as margens de lucro.

E saudades do café? «Adaptei-me bem ao café daqui. Já prefiro o de cá ao daí. Mas quando for aí em maio posso mudar de ideias».

Bom clima a respirar multiculturalidade

Rendida às Bahamas, esta família destaca o tempo (os melhores meses são janeiro, fevereiro e março) e a experiência multicultural como os pontos fortes desta experiência. «Convivemos com muita gente, o que tem sido sobretudo ótimo para os miúdos. Ficam com uma dimensão global do mundo. Têm um colega dos EUA e conseguem ir ao mundo identificar».

Depois, há aqueles pequenos grandes prazeres da vida que é tão bom ter ali, a 500 metros de casa. «O país é muito bonito. A água da praia tem muitos seres vivos. Já vi um ataque de tubarão a uma gaivota. Coisas que só tinha visto no National Geographic. E aquela água azul que aparece nas fotografias promocionais… é mesmo assim».

Artigo publicado aqui 

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