Agricultura na moda: mas produzir o quê?

É tudo uma questão e estratégia e de escolher um produto com foco na exportação

«Essa é a pergunta clássica e classicamente errada. Não há produtos-chave na agricultura. Há comportamentos e estratégias-chave nos vários produtos. Quando vemos jovens a produzir mirtilo e ervas aromáticas, quem sou eu para dizer que não é um produto-chave se exportam 98% da produção? Estão a ajudar o país».

O secretário de Estado da Agricultura, José Diogo Albuquerque, acredita que o setor «tem uma oportunidade enorme para ajudar o país. Qualquer euro a mais que produza, que importe menos, exporte mais ou substitua no mercado nacional, no fundo está a ajudar a economia do país». Isto porque a agricultura tem um défice da balança comercial de 3,5 mil milhões de euros, assinalou, em entrevista à tvi24.pt.

E se existem setores mais clássicos, como o leite, os bovinos, o milho, o vinho ou o azeite, «que têm demonstrado um comportamento muito bom e só por isso se tornaram estratégicos», para o Governo «todas as abordagens são acertadas».

O que importa é ter estratégia e conhecer o mercado

O vinho, por exemplo, deparou-se em 2012 com uma redução de 5% do mercado interno, mas que foi compensada pelo aumento das exportações de 5%, com um retorno de maior valor. «Isso é um exemplo de um setor que seguiu uma estratégia e está no caminho certo».

O azeite, outro produto estrela, «está a aumentar a autossuficiência em valor, quase a chegar à autossuficiência a nível da produção e articulação». No que toca ao milho, «Portugal está como campeão em termos de produtividades históricas. Tem havido grande investimento na modernização».

Um outro exemplo, menos óbvio, é o do kiwi. «Toda a produção passa através de quatro organizações de produtores e é bom haver grande concentração da oferta. Estamos a consumir todo o kiwi que produzimos e ainda exportamos».

Daí que o Governo se recuse a dizer que há um setor melhor do que o outro. «Isso foi feito no passado, mas a meu ver, foi completamente errado. Todos os produtos queriam ser considerados estratégicos e ter apoios maiores».

O que é preciso é «conseguir mais valor na matéria produzida para conseguir melhor preço. Temos de ter estratégias de exportação e, fundamental, concentração da oferta. Prefiro um bom projeto ou ação concertada na carne do que uma má no vinho».

A ideia é «conseguir valor, diferenciação».«Se vendermos leite, queijo e iogurtes já estamos a conseguir mais valor. Temos de conseguir escala e isso consegue-se com a concentração da oferta e com estratégias concertadas que é o trabalho através da fileira – entre a franja da produção, da transformação e da distribuição», defende o secretário de Estado.

E é por isso que o Governo dá maior majoração de apoio aos produtores que estão integrados em organizações de produtores. «Foi o que fizemos no ano passado quando abrimos a medida de modernização de produções agrícolas no Proder – uma majoração 5% maior a agricultores que pertençam a organizações de produtores».

José Diogo Albuquerque admite que «quando estamos a falar de montante baixo não conta muito, mas quando estamos a falar em investimentos de 100.000 euros, 5 mil euros são importantes. Isto é só um primeiro passo. Vamos caminhar para valores maiores», promete.

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Artigo publicado aqui no dia 23 de janeiro de 2013

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