À porta do consulado: histórias de quem parte para o Brasil

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É um dos destinos mais procurados por portugueses que tentam a sorte lá fora. É a crise que os empurra, mas não só

Manhã de março. A bandeira brasileira embalada pelo vento, no Largo Camões. O entra e sai é constante, mas sem as imensas filas de antigamente, graças à possibilidade de agendar o atendimento, em algumas situações. A «guardar» a porta do Consulado do Brasil estão os senhores que se dedicam à publicidade das agências que tratam dos documentos e/ou das fotografias.

Queixam-se que há menos gente a procurar os seus serviços. «Começou a diminuir em outubro do ano passado. Muitas pessoas pagaram metade e não vieram levantar mais. Às vezes não têm dinheiro. Às vezes vão para outros países da Europa, que é mais fácil», conta-nos Edson Gomes, um desses senhores, há quatro anos nestas lides.

Cobra entre 120 a 130 euros por cada documento que trata, porque tem de ir ao cartório, ao consulado, pagar taxas de transporte e entregar tudo. Que margem ganha então? Sorri e responde: «Dá para comprar azeite, sardinha e pão e pagar a renda».

Já lá dentro, a correria com que Joana Costa desce as escadas, rumo à saída do Consulado e a uma nova vida chama-nos a atenção. Com pouco fôlego, aceita conversar. Tem 28 anos e é licenciada em artes do espetáculo. Voltou do Brasil esta semana. Esteve lá como turista e agora vai regressar, com trabalho em vista. O companheiro, brasileiro, já lá está.

E ele «é um dos motivos», mas também «porque aqui está difícil». «Já estou desempregada desde o final do ano. Ele, desde o início deste. É geógrafo. A empresa faliu. Estava cá há 10 anos».

«Tens pena de ir embora?», perguntamos-lhe. «Tenho. Muita». Joana não consegue travar as lágrimas. Chegou a hora da despedida. Recife é a próxima (e duradoura) paragem. «A perspetiva são pelo menos uns 5 anos até as coisas estabilizarem».

Há muitos mais brasileiros do que portugueses à espera. No total, são quase 700 as pessoas que por aqui passam todos os dias.

Mas não é difícil encontrar quem seja mesmo de cá e vá tentar a sorte do outro lado do Atlântico. É o caso de Patrícia Borges, 28 anos, com o 12º. Casada com um brasileiro, pintor de carros, que foi entretanto para lá, despediu-se do call center da EDP. «Estou farta. Só há cortes. Quem está ali a dar a cara ao público não passa dos 600 euros» de ordenado.

Tem uma filha e é também por ela que tomou a decisão. «Que futuro é que vou dar a uma criança? Que futuro é que lhe vai dar o nosso país? É por isso que estou a pensar mais à frente».

Queixa-se da grande burocracia. «Lá em baixo disseram-me que era fácil, eu vinha tirar hoje [o visto permanente e a nacionalidade da pequena] e daqui a uma semana estava pronto. Agora disseram-me que preciso de autorização do meu marido, de lá».

Já João Branco, arquiteto, 39 anos, está a experimentar um regresso às origens, sem sair efetivamente de cá. Nasceu no Brasil, mas está em Portugal desde os três anos. «Vim ao Consulado registar o casamento. Como pretendo ir ao Brasil mais vezes, porque lá há trabalho, convém ter tudo regularizado». Tem uma empresa montada aqui, que quer manter, «mas preocupam-me os próximos anos». Por isso está também a pensar tratar da dupla nacionalidade do filho.

Cláudia e Pedro vêm com as duas filhas, uma delas bebé de colo. Estiveram um mês no Brasil para tratar da casa e da escola da filha mais velha. No caso deste casal, a crise não mexeu em nada com a decisão de emigrar. Foram pela proposta profissional que ele recebeu. «Fui lá montar uma equipa de operações de atendimento de consultoria informática para uma empresa americana». Ficar até dezembro de 2014 é o plano. «Depois vemos».

Artigos publicados aqui no dia 19 de abril de 2013

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