A padaria de bairro que respira portugalidade

A Padaria Portuguesa quis devolver a Lisboa o hábito de comprar pão pertinho de casa. Pão e outras coisas. Já tem 13 lojas. Este ano chega às 20

A Padaria Portuguesa

Ideias geniais podem, afinal, partir de pressupostos bem simples. O pão faz parte da dieta alimentar dos portugueses, mas as padarias evaporaram e a grande distribuição ganhou terreno. Só que o hábito português de ir beber um café, comer um bolinho e comprar pão continua lá. A Padaria Portuguesa quis trazer de novo esse conceito de padaria de bairro a Lisboa. Com uma imagem e produtos recheados de portugalidade.

«O pão de deus é o nosso best-seller. Faz as pessoas deslocarem-se de propósito e até já tivemos pedidos de Luanda e do Dubai, por exemplo», disse à tvi24.pt o fundador, depois de beber um café na última loja inaugurada, em Alvalade. Costuma tomar dois pequenos-almoços nas suas padarias, vê de perto como o negócio funciona.

Para além daquele bolo, há pão a sério, claro. E muito: «Tínhamos de ter uma oferta mais rica do que as padarias tradicionais. A nossa cruza pão de trigo, de mistura, centeio, com sementes diferentes, formatos diferentes, tipos de cozedura diferentes».

A receita tem funcionado. Nuno Carvalho trabalhava há 10 anos em marketing, na Jerónimo Martins, e adorava. Mas fez 30 anos, altura para balanços, e queria um novo desafio. Arriscou, sem recorrer a financiamento bancário. Prefere não falar em números. Sabe-se que um dos acionistas é o humorista José Diogo Quintela.

Em dois anos, abriram 13 lojas e a meta é chegar às 20 em 2013. Empregam mais de 220 pessoas, entre fábrica, estrutura de gestão e lojas. Quiseram contrariar o espírito de que «este país está a fechar». «Isso criou uma revolta em mim. Estamos numa fase recessiva que tem de ser contrariada. Senti-me na obrigação de o fazer».

De qualquer modo, admite, «isto não é um espírito puro altruísta. Temos interesse financeiro no negócio e uma empresa que não que não tem como pretensão crescer, rapidamente definha».

Mas era preciso marcar a diferença, a todos os níveis. Ter um produto bom não chega. E padarias, há muitas. «Não havia o conceito profissionalizado de padaria em Portugal. Os negócios são tipicamente familiares, com os donos atrás do balcão. É a marca de café a pagar o toldo, a de bebidas a pagar a esplanada, descaracterizando o ambiente. Quisemos marcadamente escolher o caminho oposto».

Aqui, de facto, tudo tem uma imagem própria. Até o porta guardanapos presente em cada mesa é revestido com o mesmo padrão do chão das lojas. Os produtos tipicamente portugueses estão expostos de forma apetitosa. Tudo pensado ao pormenor.

Nuno Carvalho garante que paga salários acima da média do mercado e há mais de um ano que o subsídio de férias é repartido em duodécimos, para «antecipar poder de compra aos colaboradores».

Sabe qual a importância de ter trabalhadores motivados: «Somos um negócio de pessoas para pessoas. Os colaboradores são a cara de uma marca. Tentamos dar-lhes formação adequada, fazer compreender bem o conceito e valores da empresa e o tipo de relação que queremos ter com os clientes». Para além disso, existem prémios de desempenho e postais no aniversário de cada um.

Quer ter «um negócio sustentável, que ande cá por muitos anos». Por isso é que defende que «temos de ter humildade de perceber que uma empresa que nasce agora tem tudo pela frente para fazer. A mensagem que passo às equipas é que não podemos perder foco naquilo que nos paga os salários – o consumidor».

Não espera um retorno imediato do investimento: «Continuamos a investir na expansão do negócio. As otimizações que fazemos, queremos passá-las para o consumidor, através do lançamento de novos produtos ou eventualmente baixar preços, como já aconteceu».

Fazer um negócio em Portugal «é uma loucura», pela carga fiscal, burocracia e falta de compromisso dos fornecedores. Ele acabou por encontrar «os parceiros certos». Acorda de manhã, todos os dias, «preparado para correr uma corrida de obstáculos». A cada dia, mais um triunfo.

Artigo publicado aqui a 25 de janeiro de 2013

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