À porta do consulado: Angola, o país de regresso, uma geração depois

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Uns emigram para a terra que foi dos pais, masque nunca chegaram a conhecer. Até agora. Há quem regresse e quem sai pela primeira vez, quase aos 40

25 anos. Desempregados. A vida pela frente. Nada os impede de emigrar. A crise que sufoca o país até dá um empurrão. As filas à porta do Consulado Geral de Angola em Lisboa, ainda antes das 8 da manhã, comprovam-no. José Brás e Débora Alexandre são um casal a frequentar o mestrado: ele, em gestão de marketing; ela, em marketing. Os pais dele são angolanos. Vieram para Portugal depois do 25 de abril. Obrigados. Agora é ele que vai para lá. Quase obrigado.

«Vim tratar da minha nacionalidade. Estamos a pensar os dois ir para lá, pelas oportunidades que lá temos e aqui não temos. E por Luanda ser uma cidade em franco desenvolvimento», disse José ao tvi24.pt, à porta do Consulado Geral de Angola em Lisboa.

«O facto de ele ter a possibilidade de ter dupla nacionalidade facilita tudo», acrescenta Débora. «Temos de nos agarrar. A minha família sente que não é uma opção. Ir embora é quase uma necessidade, uma obrigação, porque aqui não temos oportunidades nenhumas. Eles [os pais] tiveram que vir para cá obrigados. Se não tivessem sido, nunca teriam vindo. Agora sou eu que vou voltar para a terra deles».

Uma ironia do destino que está a fazer cada vez mais famílias repensar, encontrar alternativas. Como a de Raul Cabral, 36 anos, profissional ligado a equipamentos hospitalares, que vive em união de facto há 10 anos. A companheira vai com ele. Mesmo não tendo nacionalidade, alinham na aventura.

«Estar por estar, preferia estar cá. Todo o emigrante que vai emigrar, se lhe perguntar se preferia estar no seu país ou no estrangeiro, a grande maioria preferia estar no país de origem. Conheço quase a África toda. Quando estive a primeira vez em Moçambique, pensava-se em ir melhorar condições de vida. Hoje em dia não: emigramos para manter aquelas que temos».

Há quem vá sem qualquer regresso planeado. Aos 38 anos, Coelho, gestor hoteleiro, sai do país pela primeira vez. É casado, tem três filhos, que espera ter perto de si daqui a dois anos. Explica porque vai embora: «Lá há a oportunidade de ser remunerado de acordo com os meus conhecimentos». Em Portugal ganha menos de 3.000 euros. Em Angola, vai receber mais de 5.000 com direito ainda a casa, carro, seguros de saúde e de vida. Pena de ir? Não tem. «Portugal vai ser um bom sítio para fazer férias».

Antecipa que o país não conseguirá sair da «crise profunda» na próxima década. «Daqui a duas ou três certamente as coisas estarão melhor».

Rui Pedro, 39 anos, técnico de contabilidade, e Tiago Bernardo, 31, mecânico, querem fugir desta «economia parada». Queixam-se que o processo para obtenção de visto é «muito moroso; falta sempre algum documento».

Silvino Teixeira, 49 anos, engenheiro elétrico, está habituado a estas coisas. Já viveu na Venezuela, no Brasil, em Portugal. Nasceu em Angola, para onde quer voltar já há dois anos, mas ficou doente. Vai tentar agora.«Tenho um filho de 13 anos para criar. Tenho de lutar, mesmo doente». Entende que a sua terra natal «é o país mais viável».

O caso de Tiago Marques, médico veterinário, 27 anos, é diferente. Tem trabalho cá, mas «é sempre mais aliciante ir para fora neste momento em termos de oportunidades e em termos financeiros». Vai com tudo pago, incluindo transportes, duas viagens ao ano, alimentação, casa, mais um ordenado três vezes superior ao que ganha cá. Entra nesta aventura com mais cinco portugueses.

Não foi difícil cruzarmo-nos com gestores e empresários de multinacionais, como a HP, que vão por temporadas curtas prestar serviços ou dar formação em Angola. Para eles, é um vaivém constante. Para outros, o bilhete é só de ida.

Artigo publicado no dia 20 de abril de 2013 no tvi24.pt

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