Crise: quando arrendar a própria casa é a única saída

Bárbara é o rosto de um Portugal que cada vez mais tem de fazer contas à vida. Situações extremas podem, apesar de tudo, dar boas surpresas

O caso de Nuno Vilariça é comum: tinha uma casa secundária que começou a arrendar para ter uma fonte de rendimento extra. O caso de Bárbara, 58 anos, já é diferente: arrenda a sua própria casa para ter dinheiro para sobreviver.

Os compromissos, as dívidas de anos, o desemprego e o suicídio do marido espoletaram esta situação. «Fiquei numa situação tão precária, que ainda estou. Tenho de arrendar os meus quartos e tenho a ajuda da mãe (que já tem mais de 80 anos) para pagar as contas. Para conseguir fazer isso tudo ainda tenho ajuda da Santa Casa da Misericórdia. Se não fosse assim não conseguia comer».

São cada vez mais aqueles que necessitam de arranjar alternativas de rendimento, por variados motivos. Só alista negra dos devedores disparou 84% no último ano. Num país de proprietários, a classe média e média alta não raras vezes possui casa secundária, que arrenda para férias, mas agora a casa principal surge como uma solução. Às vezes, a única saída.

Na zona de Campo de Ourique, Bárbada arrenda cada quarto por 250 euros, com todas as despesas incluídas. Os hóspedes costumam ficar por seis meses. Muitas vezes prolongam a estadia por 11.

«Tenho tido imensa sorte, tem sido uma ótima experiência». Recebe vários estudantes Erasmus e profissionais. E, apesar do momento que vive, o otimismo: «Tenho conseguido passar informação positiva sobre este país que adoro, mesmo em crise». A troca de experiências «ajuda-me a aprender e não estagnar no tempo. Se não fosse isso acho que não tinha sobrevivido».

Também já arrendou quartos para férias a amigos dos seus hóspedes, durante o verão. E tem sido gratificante: «Todas as pessoas que tive lá em casa, em sistema não de aluguer ou de partilha – chão ou sofá – têm voltado sempre».

Fora esse dinheiro, ganha 250 euros por mês a fazer quatro horas de limpezas, de segunda a sexta. O que consegue, com este trabalho e com o arrendamento dos quartos, «não é para fazer poupança; é mesmo para sobreviver». Mas sucumbir ao pessimismo, nunca. Entretanto já frequentou um curso que lhe deu equivalência ao 9º ano. E quer completar agora o 12º, habilitação que terá quando completar 60 anos.

Já Nuno, que vive em Lisboa, desde há quatro anos que arrenda uma casa com jardim e piscina num condomínio fechado, em Palmela, entre os 770 euros e os 1.260 por semana, consoante a época do ano. Em 2012, com a crise, arrendou, no máximo por 1.150. «Ajuda essencialmente a pagar custos da casa». É uma forma de não retirar dinheiro do orçamento familiar para um alojamento de que não usufrui.

Grande parte dos portugueses faz cada vez mais contas à vida e esta pode, de facto, ser uma solução para encaixar mais uns trocos ao fim do ano, que fazem toda a diferença. «Com a crise, há cada vez mais proprietários a arrendarem casas principais, ficando depois alojados em casa de familiares. Já começa a ser o prato do dia», constata Sofia Dias, responsável pela Homelidays em Portugal, um site dedicado ao alojamento para férias.

Neste portal, em média, os proprietários conseguem arrendar 10 semanas ao ano. «Tendo em conta que, em média, um alojamento, para uma semana, ronda os 700 euros, faz o rendimento extra rondar entre 7 a 10 mil euros por ano. É mesmo uma solução anti-crise».

Depois, «esse extra permite também fazer melhorias na casa, ajudar a pagar o IMI fazer face despesas mensais, como o condomínio». É o caso de Nuno. Já Bárbara é o rosto de um certo Portugal, cada vez maior.

Artigo publicado há um ano, 5 de março de 2013, no tvi24.pt

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