Portugal pós-resgate: uma caixa fechada, sem saídas

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Discurso de que portugueses vivem acima das suas possibilidades repete-se desde que pedimos ajuda à troika. Faz agora dois anos

Que país temos, agora que passaram dois anos do pedido de resgate à troika? Uma sociedade em que o sentimento de culpa se incrustou, por alegadamente os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades. Uma lógica «completamente errada», na opinião de José Manuel Mendes, do Centro de Estudos Sociais de Coimbra,

O sociólogo lembra a «memória da fome», que faz com que «as pessoas tenham comportamentos de acumulação». Entende que a questão da culpa «tem sido muito bem trabalhada» pelos poderosos – as pessoas sentem-na, mas sem razão.

«O que mais dói é a perda de vergonha do patronato»

Estamos perante «uma mudança radical: a ideia de que não vamos ter carreiras, que tudo dependerá da boa vontade dos empregadores». Dois anos depois, «o que mais dói é a perda de vergonha do patronato». José Manuel Mendes dá o exemplo do discurso do presidente do BPI, quando disse que se um sem-abrigo aguenta, os portugueses também aguentam a austeridade.

«Esse discurso serve para aumentar a desconfiança. É o discurso do medo», que leva a que se consiga «contratar gente muito qualificada por 700 euros e que pessoas menos qualificadas aceitem o salário mínimo». Uma espiral «muito perigosa».

O investigador lembra a «história de pobreza, de fascismo, de subida a pulso, bem como a mobilidade social» que tem caracterizado a vida dos portugueses, mas que agora já não existe. «Como é que vamos sair disto, de uma sociedade em que não há perspetivas de mobilidade?. Como é que se constrói uma sociedade sem um projeto de futuro? Aqui não há. Nem da parte dos líderes europeus, nem nacionais, nem comentadores» que formulam a opinião pública.

Depois, a ameaça crescente do conflito intergeracional. «A ideia de que os reformados estão a ser privilegiados pelo modelo da segurança social», que devia inspirar «confiança e distribuição geracional». Os níveis da coesão social «estão em mínimos». E isso é também «muito perigoso».

No campo político, o descrédito. «É muito difícil avaliar se o PEC IV teria sido suficiente», dada a dimensão internacional da crise, nota o politólogo Carlos Jalali. «Se tivesse sido aprovado, não teríamos tido resgate naquela altura, mas não é certo que tivesse sido evitável». O atual Governo foi para além da troika, sem ela pedir, o que Jalali encara como «mais um discurso de campanha do que um projeto político».

Passos Coelho e Vítor Gaspar quiseram ir além, imprimindo optimismo nas previsões. Elas «são falíveis, ainda mais num contexto de enorme incerteza», mas «o problema é quando se infiltram no discurso político», porque depois «geram expectativas que não são confirmadas». Os portugueses foram confrontados com isso, durante estes dois anos, o que agravou «a insatisfação com o funcionamento da democracia».

Já o professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Pedro Cosme Vieira, defende que «as previsões do Governo não têm como objetivo adivinhar o futuro, mas apenas que os avaliadores [a troika] concordem com elas». Mesmo quando são otimistas.

O memorando de entendimento dura mais um ano e pouco. «Há muita gente que diz que seria possível renegociar e encontrar alternativas, mas o exemplo do Chipre sugere que a Europa não está particularmente disponível para suavizar», adverte Jalali. É como se estivéssemos «dentro de uma caixa fechada onde há muita tensão, mas não há saídas».

Embora a situação económica do país tenha «piorado relativamente a 2011 (e ainda vai piorar mais), essa dinâmica negativa é apenas aparente, porque a nossa qualidade de vida era falsa. Baseava-se em endividamento externo», entende Pedro Cosme Vieira. «É semelhante a uma pessoa que, vivendo como uma máscara de oxigénio, consegue subir o monte Evereste mas que, retidado o suplemento, asfixia imediatamente». Neste últimos dois anos, «viveu-se o possível». «Custa muito fazer dieta, mesmo com a esperança de que vamos viver mais anos e com mais saúde», conclui.

Artigo publicado aqui a 6 de abril de 2013

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