Na cabine do metro

VIAJAR CONTRA O TEMPO

São vidas subterrâneas. Rotinas indiferentes. Passos apressados em direcção a mais um dia de trabalho. Objectivo? Chegar a tempo. Este é o metropolitano de Lisboa: lado a lado, maquinista e multidão.

Vanessa Cruz

Nos bastidores do Metro de Lisboa – Vanessa Cruz

Um dedo no botão e as portas abrem-se. Novo dedo no botão e as portas fecham-se. O arranque é suave e o percurso, sombrio. Mais depressa, uma curva, agora mais devagar. Tubo cinzento. Linhas entrecruzadas no chão. Mais para a direita, agora mais para a esquerda, travar ligeiramente. Luz vermelha, luz verde: pára, arranca. Luz branca ou violeta: seguir a marcha ou proibir a marcha. Ruído crescente. Encontros em andamento. Fugazes. Não há tempo para acenos de cabeça. O comboio da outra linha já passou. Também “não há tempo para perceber a escuridão”. A próxima estação é já ali. Faltam dois minutos. António Faria, de 46 anos, é maquinista há 11. Mas está no metro há mais. Foi ajudante nas estações e, mais tarde, factor. Abria e fechava as portas do comboio. A profissão desapareceu. Agora o botão é que manda.

São também horas de fechar as portas da escola e do trabalho para muitos dos habitantes da capital. A viagem até casa passa, também para muitos, pelo Metropolitano de Lisboa. Respira-se Outono em cada uma das saídas (ou entradas) das várias estações do metro. O cheiro invade as carruagens. Uma menina, acompanhada pelo pai, delicia-se com meia dúzia de castanhas. “É raro andar de metro com a minha filha, mas é um momento em que aproveitamos para estar só os dois”, confidencia Fernando Dias. Quando a filha não o acompanha nas viagens diárias, aproveita para ler. Adepto dos transportes públicos, o que o atrai no metro é “a velocidade e não ter que atravessar os obstáculos da superfície. É, no fundo, uma maneira de vencer as distâncias”. Já os quatro filhos de António Faria, dois gémeos de cinco anos, uma menina de 14 e um rapaz de 19, não costumam utilizar este meio de transporte. “Mas gostam da profissão do pai”, afirma, sorrindo, o maquinista, quando sorriem também os seus olhos azuis. Fernando Dias, o passageiro, reconhece que “as viagens curtas não permitem grande desenvolvimento de conversas”. Para António, as conversas já foram riscadas da agenda há algum tempo: “Antes, quando havia o colega factor, comunicávamos pelo intercomunicador, sentíamo-nos mais aconchegados e acompanhados. Agora estamos aqui sozinhos”. O metro é o palco que representa parte da vida de Lisboa. A a plateia é anónima. No entanto, António defende-se: “Eu até gosto de falar com as pessoas, mas transportamos todo o tipo de gente. Por um lado, é melhor estar eu aqui na cabine e as pessoas do outro lado, nas carruagens. Cada um na sua parte, até para prevenir confrontos”.

A AZÁFAMA SUBTERRÂNEA FORA DE HORAS

Todos os dias, milhares de pessoas circulam pelo metro de Lisboa. Todos os dias, uma equipa de 200 maquinistas e uma série de inspectores, postos de controlo, pessoal da limpeza e da energia, engenheiros e seguranças, põe a máquina a funcionar. Dia e noite, a parte subterrânea de Lisboa vive numa azáfama necessária para que tudo funcione sem percalços. “Distracções são fatais. O maquinista anda sempre em cima da faca: quando escorrega, corta-se logo”, avisa José Reis, inspector de tracção. Descobrir o verdadeiro metro de Lisboa, aquele dos túneis cinzentos, de aspecto cilíndrico, um emaranhado de linhas e de semáforos e de câmaras de vigilância é descobrir também novas formas de vocabulário, aplicadas à profissão. Inspector de tracção significa, na verdade, inspector dos comboios. E mais: galeria, no jargão dos maquinistas, é o túnel por onde viaja cada comboio. Há, ainda, o “homem morto”. António explica depois que o dispositivo que tem esse nome não é mais do que um alarme accionado através de um manípulo ou de um pedal, para avisar que existe algum problema com o condutor. Nesse sentido, assegura, “é impossível haver acidentes no metro”. A equipa funciona e “temos uma excelente relação com as chefias”, garante Rui Farragatão, maquinista há dois anos e meio, mas membro do metro há mais de oito.

Durante três meses, os candidatos a maquinistas frequentam um curso de preparação. Mas primeiro têm de passar por testes médicos e psicotécnicos. “Somos preparados psicologicamente, somos seleccionados porque temos o perfil indicado para desempenhar esta profissão “, adianta Farragatão. O maquinista desistiu do curso de Gestão. Queria alcançar a carreira que mais o aliciou dentro do metropolitano. E assegura que “ninguém percebe mais de comboios do que nós”. Com António foi diferente. Ou ia para as estações ou ia conduzir um comboio. “Chamaram-me primeiro para os comboios e não estou arrependido de ter dito que sim”, assegura.

“É onde geralmente esperamos pelo castigo”. Gomes da Costa, de 35 anos, maquinista há quatro meses, refere-se, em tom de brincadeira, à sala do pessoal da estação do Terreiro do Paço, onde espera pelo seu comboio. São 15h40m. Espera-o também mais um dia de trabalho.

No entanto, o dia no metropolitano já vai longe. A alvorada começa muito antes das seis e meia da manhã, hora em que os passageiros podem apanhar o primeiro metro. O “lançamento de comboios” é efectuado pelos primeiros maquinistas em funções nesse dia, a partir do Parque de Material e Oficinas (PMO). Começa o trabalho preparatório de manutenção nocturna: verificar o funcionamento das portas, travagens, instrumentos de avaria, limpeza dos comboios, sinalização, horários e o teste final, o chamado comboio de inspecção, que percorre a linha de uma ponta à outra, por volta das 6h15. “Confiar no sistema que temos é muito importante”, frisa Gomes da Costa. Chega mesmo a dizer que “o metro peca por excesso”. Poder-se-ia garantir que a falta de concentração do maquinista pode provocar algum acidente, mas, na verdade há sempre alternativas para que ele não aconteça. A concentração (ou falta dela) tem um nome. Chama-se Rotina: “A profissão que temos consiste em uma pessoa sentar-se, andar de baixo para cima, descansar um bocado e voltar a fazer o mesmo. Chega a um ponto que já não sabemos se estamos a ir ou a vir. É fatigante”, esclarece António. Gomes da Costa também já se sentiu mais desorientado: “Ao princípio já não sabia por onde andava, agora tenho pontos de referência”.Rui Farragatão, por sua vez, também reconhece que “existe rotina na profissão” e, como a mulher é funcionária do metropolitano, “quase que levamos o trabalho para casa”. E esta é, por outro lado, uma actividade susceptível de trazer a casa para o trabalho: “Se há um problema na vida, por exemplo, um filho doente, é uma das profissões em que, por estarmos sozinhos, não nos conseguimos desligar dos problemas. Fora isso, é uma questão de hábito”. Este parece ser um ofício em que a solidão e a rotina andam de mãos dadas. Uma questão de hábito. Além disso, confessa António, “é uma profissão de desgaste rápido em termos de envelhecimento”. O maquinista refere-se a potenciais problemas futuros: o ruído que afecta principalmente o ouvido esquerdo, por ser aquele que está junto da porta de saída; a poeira que respiram todos os dias, semelhante a ar de parque de estacionamento; e o contraste de luz, nomeadamente para quem trabalha em linhas interiores e exteriores, que pode causar problemas de visão. Mas António assegura: “É uma empresa onde nos sentimos estáveis”. É uma casa onde a família dos maquinistas é tida em conta, sobretudo por poder aderir às iniciativas do Centro Cultural do Metropolitano. Campos de férias e concursos para os filhos, viagens e seguros para toda a família são algumas das delícias da profissão. “Temos várias benesses. É aliciante. Mão mudaria de profissão. Agora é até à reforma”, confidencia António. As regras do trabalho, essas, são mesmo para cumprir. Existem 70 horários diferentes. Os maquinistas podem conduzir um comboio por um período máximo de três horas, em dois turnos. Trabalham sete horas e meia por dia, durante quatro ou cinco dias por semana e folgam dois. E há dias em que ficam de reserva, caso falte alguém.

A VIDA NUM «LUFA-LUFA»

Entretanto, passageiros não faltam e o metro não pára. O entra e sai é permanente. Mas António Faria é peremptório: “Se for perguntar às pessoas que passam todos os dias pelas estações remodeladas que decoração têm as paredes, elas não sabem. Andam sempre num lufa-lufa. Da maneira como andam aqui, já chegam ao emprego cansadas, consumidas pelo stress”. Rosária Machado, à entrada da estação de Telheiras, passageira pouco habitual do metropolitano, acrescenta que “de manhã vem tudo mal disposto e à noite tudo cansado, mas Lisboa é mais do que isso, há muitas pessoas simpáticas”. E surpreende-se com o facto de ainda existirem maquinistas: “Pensava que o metro era automático”. E é, na linha vermelha, que vai da Alameda ao Oriente. Mas o maquinista está sempre lá, como observador e solução para situações inesperadas.

Há assim uma parede que divide duas histórias: de um lado, a história da tranquila e solitária cabine do maquinista e, do outro, a história das histórias de vida das pessoas que viajam todos os dias pelas carruagens do metropolitano. A distância física entre o maquinista e os passageiros dita uma relação com altos e baixos: “Costumam pedir informações e nós estamos sempre prontos a ajudar. Mas, entre os passageiros, é um salve-se quem puder. Muitas vezes somos nós que saímos da cabine para ajudar um cego, uma pessoa de cadeira de rodas ou carrinhos de bebé a entrar para o comboio”.

As sensações, em viagem, são, também elas, distintas. Os passageiros sentem a velocidade ao ponto de a inércia as vencer: tombam para a esquerda e para a direita numa coordenação que supera a de bailarinas em dia de espectáculo. Ou são simplesmente corpos que se deixam levar pelas curvas que o comboio percorre, levado pela mão do maquinista. O comboio tem uma velocidade limitada de 60 km/hora. O ritmo de vida da capital supera quaisquer limites de velocidade. Muitas vezes, o fenómeno sardinha em lata nas carruagens atinge um ponto em que ao mínimo movimento tudo pode descambar. Sinónimo de horas de ponta. Para António, “o lema é ver, apanhar e seguir. Se o comboio demora mais um minuto, os passageiros começam a bater no relógio, a indicar a pressa e o atraso”. Gomes da Costa confirma esta realidade: “O ritmo de vida das pessoas é alucinante. Vivem o momento ao segundo, parece que é o último segundo de vida”. Tudo para “chegar a casa dois minutos mais cedo”, continua.

E chegar ao metro, para o passageiro, é apenas rotina. Quem não contabiliza o tempo ao minuto coloca-se do lado direito da escada rolante e deixa-se levar. Não impedir a passagem no acesso à estação do metro é uma prática das grandes cidades. Lisboa não é excepção. E as pessoas assimilam a regra. Do lado esquerdo, corre sempre alguém e nunca dá tempo para ver quem era. Tinha pressa. Namorados de mãos dadas contrariam a tendência. A paixão ocupa mais do que metade de uma escada rolante e, claro, no sentido ascendente. Mas há também quem não se distraia da leitura em andamento e não chegue a sentir a respiração do cupido. Talvez o romance que lê seja mais intenso. O sono é, por outro lado, uma constante. Há réplicas e réplicas de bocejos. Será a ditadura dos horários a reflectir cansaço? Não há tempo para pensar. É hora de encolher dentro do metro.

Mas será a pressa de viver de alguns a saturação da vida para outros? “Parece que foi um sonho, mas depois cai-se na realidade e custa um bocado”. António já presenciou quatro tentativas de suicídio enquanto conduzia um comboio. O metropolitano disponibiliza ajuda psicológica para estas situações, mas António assegura: “Nunca fui e agora já não me causa tanto impacto”. É preciso sangue frio para lidar com momentos inesperados. Nestes casos, o maquinista acciona as chamadas alavancas de disparo para quebrar a corrente, de modo a que a pessoa caída não fique electrocutada. Depois, há que avisar o posto de comando para serem tomadas medidas preventivas. No entanto, há pessoas que preferem apenas pregar sustos à vida: “Apanhei namorados a discutir. A rapariga ameaçou atirar-se para a linha”, conta Gomes da Costa. É ainda mais curioso um maquinista dar de caras com grafiters, a meio de um túnel. “Normalmente entram pelas estações e saem pelas saídas de emergência”. Na estação do Colégio Militar deparou-se com dois grafiters a explorar as novas tendências da pintura. Descontraidamente, disseram-lhe: “Fomos dar uma volta”. E os furtos, claro, são o pão nosso de cada dia. António já sabe todos os truques dos carteiristas.

Enquanto “há pessoas que literalmente se atiram para o comboio e continuam a querer entrar, mesmo quando o comboio já está a sair”, como explica Gomes da Costa, os maquinistas passam horas debaixo da terra, a desempenhar as suas funções sem pressas e sem saber o que se passa no mundo. “Sabemos que está a chover porque as pessoas trazem guarda-chuva”, admite António Faria. “Nos primeiros seis meses, sentia falta de ver a luz do dia. Depois é uma questão de hábito. Até é melhor andar cá em baixo do que lá em cima”, brinca. O mesmo se passa com Gomes da Costa: “Podemos entrar de dia e sair de noite do trabalho sem sabermos que houve transição”. No entanto, a rotina ainda não atraiçoa este maquinista: “Como sou maquinista há pouco tempo, ainda penso muito no que estou a fazer. Sinto que não domino completamente a máquina e o ser humano tem o desejo desse domínio absoluto. Preocupo-me com uma condução confortável, olho para os monitores para ver se existe desconforto por parte dos passageiros porque tenho a noção de que levar 1000 pessoas é diferente de levar 2000. As travagens e a aceleração têm de ser diferentes”.

O espaço reduzido da cabine de maquinista possui o engata/desengata necessário para pôr a máquina a trabalhar: seis carruagens de dia, três à noite. E muitas vidas para transportar. Como lidam então os maquinistas com o peso da responsabilidade? “Naturalmente”, afirma Rui Farragatão. “A responsabilidade é grande, sobretudo quando abrimos ou fechamos portas. É preciso ter cuidado para não abrir as portas do lado errado”, contrapõe Gomes da Costa. Assim pensa também José Martins, um passageiro reformado. Anda regularmente de metro desde os 25 anos. Pensa que um maquinista precisa de ter “muita atenção para cumprir normas de segurança, ver os sinais” e que esta é uma “profissão cansativa, mais saturante: só vê paredes”.

Nas carruagens, cada pessoa passa o tempo à sua maneira. Uma menina lê e ouve música, há homens de negócios com ar pensativo, senhoras com sacos de compras, pessoas de pé, com a mão entre o queixo e a bochecha. Tocam telemóveis e percebe-se que a moda preventiva dos phones tem sido posta em prática. Há também quem olhe para o telemóvel e clique uma conversa qualquer. Há amigos que conversam durante a viagem. Mas a maioria das pessoas permanece calada. Ou quase a dormir. Uma senhora, de pé, encostada à porta da carruagem, tem os olhos semi-fechados. Há quem aproveite os 10 minutos de viagem para roubar um pouco mais de sono à vida. E ouve-se também kuduro proveniente do mp3 de um jovem. Música que expressa uma Lisboa multicultural. De repente, um grupo de seis adolescentes entra de rompante na carruagem. “Cuidado com a senhora!”, ouve-se. Os olhos da maioria estão distantes. Afinal, é um percurso que fazem todos os dias. O relógio continua a marcar o tempo. É hora de “picar o cartão e ir embora”, diz António. Amanhã há mais.

Reportagem académica, no âmbito do Ateliê de Imprensa do Mestrado em Jornalismo (ESCS), orientado pelo professor e grande jornalista Paulo Moura

Publicada hoje, n’O Muro, porque bateu a Saudade

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