Quando as juntas de freguesia são a (única) janela para o mundo

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Junta de Maranhão é posto de correios, ajuda a pagar contas. Não há médico nem farmácia. Só em Alcórrego, onde a junta avia receitas e mede a tensão

Fica isolada. Lá no alto. A escola, branca e amarela, é a porta de entrada. Fechada. Vazia. As galinhas tomam o lugar das crianças no escorrega. A junta fica logo a seguir. Três ou quatro ruas, casas brancas e azuis. Assim é Maranhão, uma das freguesias mais pequenas do país, com pouco mais de 60 habitantes. Apesar de tudo, curioso, 20 têm até 18 anos.

Esta junta de freguesia, concelho de Avis, Portalegre, vai agregar-se a Alcórrego. Valongo e Benavila também estão na calha. A proposta de lei afeta 1.165 freguesias e será debatida esta quinta-feira.

Nas duas primeiras, quem fica a perder é o Maranhão, porque é mais pequena. Pode deixar de existir.

Hélia Correia, funcionária da junta, resume em poucas palavras o que ela é para esta gente. «Somos a Santa Casa». Maranhão «é muito pequenino e está muito isolado. Fazemos tudo». Tudo desde marcar um simples exame médico, uma consulta (em Alcórrego, que aqui o médico deixou de vir há dois anos), dar a contagem da luz, ajudar a fazer o IRS.

«Não temos posto de correio oficial, mas trabalhamos em parceria com o carteiro. Quando vem uma carta registada, a população confia em nós para assinarmos. E ainda no outro dia uma senhora ficou sem telefone; ligámos nós para a PT. Tudo a custo zero».

O coveiro vem uma vez por semana. É o mesmo de Alcórrego e foi a primeira pessoa com quem nos cruzámos no Maranhão. António Joaquim Madeira, 54 anos, apresentou-se: «Sou o faz tudo. Assistente operacional».

É contra a agregação: «Está mal, porque levar a extensão desta é fazer com que as pessoas abalem de cá. É preciso fazer um telefonema e têm de ir a Alcórrego. Está a contribuir-se para a desertificação».

Hélia vai duas vezes por semana para a junta de Alcórrego. Já era assim antes da agregação anunciada. «Costumo dizer que há o dia em que fico na cidade e o dia em que venho para o monte». Tem «pena» desta gente. «Têm-nos tirado tudo. A única coisa que prende a população à terra é a agricultura e as rendas baratas. Caso contrário, há que tempos Maranhão não existia».

Ainda existe e aqui consegue-se ouvir o silêncio. Os pássaros parece que cantam mais alto, interrompidos apenas pelo tilintar das campainhas penduradas nos pescoços das ovelhas. E por dona Odete, com quem conversámos. É a habitante mais velha de Maranhão, a única que já está reformada. Tem 70 anos.

«A junta no Natal dá um cabaz à gente» e costuma oferecer um cheque prenda às crianças. «Vou ali tratar dos papéis, pagar a luz e o telefone. Não sei telefonar com aqueles telemóveis que há agora». Tem a reforma mínima, nem se lembra ao certo quanto é. Só que é a mais baixa.

Já teve dois AVC e tem vários problemas de saúde. O INEM já veio buscá-la três vezes. Não demorou muito. Farmácia, só em Avis. «Se não fossem os meus filhos…». O marido morreu há 24 anos.

Fica sobretudo revoltada por não haver médico. «Mesmo em Avis, se uma pessoa vai fora de horas não há médico nenhum». Gostava que houvesse futuro para esta terra, mas «acabando a junta, não há mais nada».

Certezas, só tem uma: «Daqui não abalo. Estou aqui há quase 40 anos, até morrer». «Eles [o governo] é que sabem o que hão-de fazer à gente. Bem, nem eles sabem. Mas a gente não manda».

Em Alcórrego, as pessoas estão solidárias com Maranhão. Num café, encontrámos panfletos contra a agregação de freguesias e para mobilizar as pessoas para a manifestação desta quinta-feira na Assembleia da República. A junta vai. Frisa-se preto no branco, com o número a vermelho, que os orçamentos das freguesias representam apenas 0,098% do Orçamento do Estado e que a maioria dos eleitos exerce funções «em regime de voluntariado».

António Marques, ex-presidente da junta, lembra o «compromisso» que as juntas têm com as pessoas. A ajuda que se dá. Assim «vão ficar muito pior». «Os governantes deviam vir cá ver. Falam em desenvolvimento. Estão a matá-lo».

Artigo publicado aqui a 6 de dezembro de 2012

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