Reportagem: «Sem junta, ficamos aqui estúpidos»

Foto de Nuno Miguel Silva

Foto de Nuno Miguel Silva

Valongo, Avis. As pessoas batem à porta do presidente da freguesia para resolver problemas. Teme-se o fim do único serviço básico que ainda têm

Escola, não há. Posto médico também não. Nem mercearia. Transportes, praticamente não existem. E agora teme-se o fim da junta de freguesia. Valongo, concelho de Avis, em Portalegre, vai ter de agregar-se a Benavila.

Café, ainda há: no «Sai de Gatas», António David, 65 anos, reformado, diz que tem de ir buscar mercadoria a Avis ou Ponte de Sôr. O mais básico não há aqui: «Se quiser comprar um pacote de sal, neste momento em Valongo não existe», conta à tvi24.pt.

Até «no tempo de Salazar tínhamos médico. Tiraram-nos. Ficámos sem nada». E agora, se a junta acaba, «ficamos aqui estúpidos».

Vai à junta e paga a eletricidade, os correios. Passar a ir a Benavila? «De maneira alguma. Ninguém concorda. Não temos culpa disto, de quem nos governa mal. Que se governassem seis meses com o ordenado mínimo e tivessem que fazer estas deslocações. Eles têm gasóleo à borla. Aqui é com o nosso dinheiro».

Quando chegamos à junta de freguesia, está um jovem no computador com acesso à Internet. E está também João Cordeiro, o único funcionário. Trabalha aqui há 21 anos.

«A população é extremamente envelhecida. Respondemos às necessidades que as pessoas têm. Somos posto de correios [assistimos à chegada de duas encomendas], tiramos fotocópias, enviamos fax, e-mails, ajudamos a fazer declarações anuais de IRS, pagamentos por transferência bancária… Serviços que o privado não tem e que na freguesia não existem».

Dá um exemplo da importância da junta: «Ainda ontem eram 23 horas e faleceu uma pessoa. Vieram bater-me à porta de casa para eu dar a chave da casa mortuária. As pessoas sabem que podem recorrer a mim ou ao presidente a qualquer hora. Com esta mudança, o poder vai ficar mais longe das pessoas».

O Governo está alheado desta realidade, segundo João Cordeiro: «Aos senhores que andam a fazer estas leis, eu disponibilizava a minha casa, para virem para aqui e terem de ir tratar destas coisas longe, para verem como é que é o dia-a-dia».

Em 20 anos, Valongo perdeu metade da população. Há ainda uma associação de caçadores e outra da juventude, que organiza festas e concursos de BTT. Mas com a nova estrutura, «isto pode acabar tudo». Primeiro, «até podem dizer que ficamos com uma extensão em Valongo, mas mais tarde podem dizer: não interessa, fecha-se a extensão, como se fechou o centro de saúde e outras coisas».

Já Benavila (800 habitantes) tem escola primária e profissional, asilo, minimercado, padaria, cafés. O médico vem duas vezes por semana e existe até uma ludoteca.

Benavila percebe o drama de Valongo. A funcionária da junta, Maria José Brazão, pensa nos mais idosos: «Para os velhotes é complicado. São freguesias próximas, mas nem toda a gente consegue deslocar-se até aqui. Se perderem a junta, perdem o correio. Só para tratarem de uma declaração ou ler um documento (muitos não sabem ler) têm de se deslocar 10 km. E há coisas que têm mesmo de ser tratadas na presença das pessoas, como os requerimentos e as assinaturas».

É esta a realidade que terão de enfrentar 1.165 freguesias em Portugal. Fomos visitar as outras duas que, em Avis, têm como destino a agregação – Maranhão e Alcórrego. Até aqui, existiam oito juntas neste concelho. Passarão a seis. A proposta de lei vai ser debatida esta quinta-feira no Parlamento. A vida, já difícil, vai piorar para esta gente.

Artigo publicado aqui a 6 de dezembro de 2012

Anúncios